domingo, 19 de outubro de 2008

Ensaio sobre a cegueira

"...o Comité Central exprimiu "solidariedade" ao líder comunista Kim Jong-il, "perante a escalada imperialista na Península da Coreia". Dois dias depois, a bancada parlamentar comunista foi a única a alinhar com Pyongyang, recusando apoiar um voto de protesto contra o teste nuclear efectuado na Coreia do Norte. E a edição desta semana do Avante! dedica uma página às teses oficiais daquele país, sob o título "Pyongyang quer a paz mas não teme a guerra" in, DN
Não há realmente palavras. Para casos destes só vejo mesmo uma explicação: cegueira. Uma cegueira colectiva que atingiu os a direcção do PCP. Não há aqui nada de novo. A defesa cega das FARC, a negação da realidade do socialismo soviético ... mas, sinceramente, a Coreia do Norte é um anacronismo, uma anedota que só o não é porque o povo coreano sofre de fome,* de isolamento, de falta de liberdade, de medo ...
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* Sobre a economia da Coreia do Norte, ver aqui.

"A Coreia do Norte prepara-se para fazer amanhã (20 de Outubro) um anúncio “importante” noticiou hoje um jornal japonês..." ...mas na Coreia do Sul afirma-se que não há nada de anormal a registar à excepção de uma reunião alargada para discutir a economia do país.

5 comentários:

Pedro disse...

O engraçado é que nada do que afirmas é facto confirmado. Todos os dados concretos sobre o interior da Coreia do Norte são especulação. Estimativas de pessoas que nunca lá entraram. Ainda no outro dia li uma avaliação baseada em imagens de satélite. É assim que começam guerras sem fundamento...

Qual é o problema de efectuar um teste nuclear? Não têm direito? Ou só os amiguinhos dos americanos é que podem? Israel? Paquistão? India?
Mas que espécie de hipocrisia é essa? Deves ter protestado imenso quando EUA, USSR, França, Reino Unido, China, Indía e Paquistão fizeram os seus testes...

A negação da realidade do socialismo soviético? Sabes do que estás a falar por acaso? Sabes o que se passou nesses anos? Sabes como era a vida lá? Falas de cegueira, eu falo de ignorância. Todos nós temos as nossas convicções e ideias, talvez um dia aprendas a perceber as dos outros.

hkt disse...

Digamos que talvez o Pedro precise de falar com aqueles que arriscam várias vezes a sua vida para atravessar o rio em direcção à China. Talvez, perceba que só alguém desesperado atravessa um rio de morte e gelo em direcção a uma vida de miséria e medo na China. Simplesmente porque na Coreia do Norte não é possivel viver. Talvez me saiba explicar porque alguém arriscaria tudo isto e, mais ainda se arriscaria a uma viagem de regresso forçada em direcção aos campos de trabalho (extermínio?). [Há vários documentários realizados clandestinamente no interior da Coreia do Norte, e também da China eventualmente, alguns poucos conseguem chegar à Coreia do Sul e contado a sua trágica história - e claro, há a dependência do trigo do imperialismo e do vagões de alimentos da China... isso, não são imagens de satélite).

Pedro, a cegeira pode ser simplesmente a pressa de tirar conclusões. O seu anti-americanismo primário força-o a julgar bom o que não é. Eu, não conheço nenhum paraíso na Terra, por isso, ninguém (americanos, russos, chineses, malteses...) para mim está a cima da crítica.

E, digo-lhe, que não gostei particularmente do tom do seu último parágrafo (mas não vou entrar por aí). Eu percebo como estão formatadas as suas ideias. Não as perfilho. Não deixe que ninguém pense por si, e se duvida das minhas afirmações leia, procure, investigue. Contraponha factos aos meus argumentos. Não se deixe levar pelas paixões e ódios, cegueira ideológica. Pense por si.

Pedro disse...

Anti-americanismo primário? É infantil pensar que as pessoas não pensam por si à partida, que todos os comunistas estão por alguma razão vendados. Isso é preconceito.

Como disse, pouco ou nada sei do que se passa no interior da Coreia do Norte.
Calculo que existam injustiças, como em qualquer outro lugar. Pobreza, fome, etc.
Até vi uma vez um documentário muito curto sobre o culto da figura do "Presidente Eterno". Isso para mim é estranho, até porque o regime não é suposto focar o indivíduo em detrimento do colectivo.
Contudo, os seus líderes não são lambe-botas como os nossos anteriores governantes ou o nosso querido Sócrates.

Gostaria contudo de apontar para uma afirmação sua: "Simplesmente porque na Coreia do Norte não é possivel viver." Está factualmente enganado. É possível sim, vivem cerca de 23 milhões de pessoas na Coreia do Norte. Provavelmente não poderão viver com as liberdades económicas do Ocidente mas vivem. Porque razão fogem? Podem ser presos, políticos ou não. Podem querer atingir fortuna pessoal. Existem vários motivos.

Contudo, não oporia uma democratização do país.

Perdoe qualquer falta de educação minha no último parágrafo, mas em relação à URSS, pouco há a dizer. A explicação que daria é a mesma que o Partido oferece, baseada nos dados e acontecimentos dos últimos anos da URSS. Só não vê quem não quer. É curioso reparar que os Comunistas nunca se referem à URSS como paraíso, factualmente não o era, mas os anti- fazem-no sempre. Eu conheço os seus defeitos e virtudes. E tu?

Aquilo a que me oponho é a uma constante dualidade de critérios e hipocrisia que só beneficia a classe estabelecida e abastada.
Ter educação, serviços de saúde e jurídicos grátis, e portanto acessíveis a todos, é aquilo a que todos os estados deveriam aspirar, não o oposto. Isso sim é democrático e humano.

hkt disse...

Caro Pedro,
Estamos absolutamente no último parágrafo (embora o "grátis" tenha muito que se lhe diga), e só aí.
Relativamente à URSS (foi VOCÊ que a mencionou, não eu)... do tempo que vivi no leste, no tempo da URSS, só guardo boas recordações das pessoas. O sistema em si era pérfido. As desigualdades extremas e a pobreza envergonhada imensa. Até a esperança estava interdita. Também lá "não se podia viver", tal como "não se podia viver" no Portugal de Salazar.
Quanto ao resto, é a sua opinião contra a minha. É benvindo a comentar sempre que o entender. Cordialmente,
Hkt

Pedro disse...

Não posso alterar a sua visão da URSS. Conheço pessoas que viveram em Berlim, Praga, Sofia e Moscovo. As suas estórias são diferentes. A repressão existia, sem dúvida. A escassez de bens e a sua entrada no mercado negro tornou-se uma coisa comum. A burocracia reinava. Contudo, segundo um livro de J.Stiglitz, prémio Nobel e reputado economista, a pobreza era inferior a 2% e o desemprego praticamente inexistente. A diferença de ordenados entre os mais bem pagos e menos bem pagos era de cerca de 10 vezes, nos últimos anos, em comparação com 150 vezes no Ocidente. A educação era completamente gratuita, assim como o sistema de saúde. Existiam coisas boas e coisas más. Defendo as boas e denuncio as más, agindo para melhorar as más. Cumprimentos, Pedro.