Em cima, uma imagem datada de Maio de 2006 que mostra a região em condições normais. Duas pequenas vilas ladeiam o rio. As localidades estão ligadas por estradas marginais que convergem para uma ponte.
Em 15 de Maio de 2008, três dias depois do terramoto, as estradas e a ponte desapareceram sob a água lamacenta. Algumas zonas das aldeias estão acima da linha de água. Veêm-se os topos das árvores e uma espécie de pequenas ilhas, assiste-se à formação de um lago.
19 de Maio de 2008, a água tinha subido o suficiente para submergir ambas as aldeias e as estradas. Os destroços flutuam na superfície das águas formando uma barreira.
Estas barragens que se formaram naturalmente após o terramoto de Sichuan estão a constituir uma verdadeira dor de cabeça para as autoridades chinesas. A cada novo tremor de terra segue-se o perigo da barreira romper deixando passar a água em cascata… A preocupação é grande pois existem dezenas de lagos o maior dos quais, o lago de Tangjiashan, tem mais de 700m de profundidade (o equivalente a 130 milhões de m3 de água) e caso a libertação de água não seja controlada a devastação da área será total...
Os sismos fazem parte integrante da história da Terra desde tempos imemoriais. Até há pouco eram fenómenos inteiramente naturais mas, as alterações provocadas pelo “progresso” humano poderão estar a influir no delicado equilíbrio das placas tectónicas que estão na sua origem .
E se o recente terramoto na China, for uma consequência da gigantesca barragem das Três Gargantas, que está a ser construída no rio Yangtze?
Quando estiver terminada em 2009 a barragem será o maior complexo hidroeléctrico do mundo. Os críticos apontam o facto de esta barragem estar localizada sobre uma zona sísmica. De acordo com um artigo da Scientific American, publicado a 25 de Março, esta barragem está a ser construída sobre duas grandes falhas: Jiuwanxi e Zigui–Badong.
Alguns especialistas receavam que o peso excessivo das águas provocasse alterações nas falhas o que intensificaria a sua actividade e poderia provocar sismos. De resto, outros projectos hidroeléctricos na China podem já ter causado pelo menos 19 sismos nos últimos 50 anos. Os relatórios da Academia Chinesa de Engenharia, da autoria de Li Wangping, registavam 822 tremores de terra entre Setembro 2006 e Abril 2007, ou seja, logo que os reservatórios da barragem se começaram a encher…
Esperava-se que esta barragem atingisse a sua capacidade máxima em 2009 devendo, então, atingir cerca de 180 metros. O aumento crescente da pressão da água e o seu movimento poderá fazer agravar os riscos sísmicos. Agora, depois da tragédia que se abateu sobre Sichuan e dos receios sobre a estabilidade de partes da obra seria imperdoável não averiguar as suas reais implicações.
O terramoto que sacudiu a China na passada segunda feira, destruindo cidades e aldeias, abrindo brechas em barragens, derrubando pontes de inutilizando estradas gerou uma onda de solidariedade que fez esbater a onda de críticas.
Curiosamente, a região afectada é precisamente aquela que foi fechada à imprensa `cerca de dois meses devido aos protestos da minoria tibetana. Nessa altura, Pequim reprimiu os protestos e fecho a região ao mundo…
Agora, as autoridades chinesas e, em particular, o seu primeiro-ministrodesdobram-se em contactoscom a população ao mesmo tempo que permitem à imprensa internacional fazer informação a partir dos locais mais afectados.
A China, parece estar a tentar tirar partido desta catástrofe para aliviar as pressões internacionais que se faziam sentir em vésperas dos Jogos Olímpicos. A cadeia de supermercados Carrefour, que após os incidentes ocorridos na ocasião da passagem da chama olímpica por Paris tinham sido alvo de manifestações de desagrado e até de boicotes foi agora destacada na imprensa chinesa pela sua participação nas acções de auxílio às vítimas. Assiste-se, assim, a um apaziguamento das tensões mediáticas. Até, a maior discrição a que estará obrigada a chama olímpica, em virtude do luto poderá também gerar uma maior tranquilidade na sua passagem.
As estações de televisão chinesas cobrem os acontecimentos 24/24h. Repórteres no local dão conta das operações de resgate. As informações sobre a amplitude da destruição, o número de mortos, feridos e miraculados (só por milagre se sobrevive debaixo dos escombros durante horas) é permanentemente actualizada. Algumas regiões estão ainda isoladas e a julgar pelo grau de destruição de algumas (a cidade de Weichuan) o número de mortos deverá ultrapassar os já admitidos 50 000.
Os chineses, em contraste com as autoridades birmanesas à pediram auxílio internacional. Precisam de cães, de material de pesquisa acústico, de câmaras telecomandadas. Depois, de num primeiro momento, terem recusado este auxílio têm já no terreno equipas japonesas aguardando-se a chegada de outros socorristas.
O primeiro-ministro Wen Jiaobao está por todo o lado, no meio do entulho em que se transformaram as cidades e vilas da província de Sichuan , numa campanha mediática consolando viúvas, beijando criancinhas, apresentando-se como “o avô”.
Mas, há questões a que não se poderá fugir. Edifícios modernos colapsaram como castelos de cartas. As maiorias das vítimas são crianças que morreram sob os escombros das suas salas de aula. O que parece evidente é, que o boom na construção civil não foi acompanhado, pelo menos nas zonas rurais, por requisitos de segurança numa zona sísmica. O resultado está à vista. De resto, estas críticas fazem-se já sentir nos muito frequentados blogs chineses: “Porque caiaram as escolas se todos os edifícios governamentais ficaram de pé? Isto é ultrajante!” é a pergunta que se faz (as normas de segurança são diferentes de acordo com a utilização dos edifícios, sendo que as escolas e apartamentos têm o nível menos elevado).
Estaremos, nós, melhor preparados que os chineses? Estará a Protecção Civil preparada para responder adequadamente a este risco? Em que medida os edifícios cumprem os de requisitos de segurança?
O terramoto emSichuan , teve uma magnitude de 7,9 na escala de Richter. O terramoto de 1755, terá atingido os 9 graus da mesma escala e foi seguido por um terrível maremoto que varreu e engoliu o litoral até ao Algarve (falar do “terramoto de Lisboa” faz parecer que se limitou a à capital quando, de facto, muitas outras localidades inclusive, Amora e Seixal, registaram importantes danos).