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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Berlim, Lisboa - vinte anos depois

via, Der Spiegel
Passaram 20 anos desde que em Berlim desabou o "muro" e com ele uma Europa partida ao meio. Temos, hoje, uma Europa diferente. O impensável aconteceu os países do COMECON e do Pacto de Varsóvia tornaram membros da União Europeia e até da NATO. Vinte anos depois a Europa prepara-se para implementar no terreno o Tratado de Lisboa, prepara-se para escolher o seu presidente. Muita coisa mudou em duas décadas e muitos desafios nos esperam mas, "o caminho faz-se caminhando" e a queda do "muro" foi um passo de gigante em direcção a um futuro que todos pretendemos melhor.
E, sim, a Europa continua desigual, e em alguns países a corrupção grassa, a xenofobia e as tentações totalitárias não abandonaram o Velho Continente. Em alguns países, existe mesmo um saudosismo relativamente ao passado - não é só em Portugal que a precária segurança do salazarismo exerce fascínio sobre algumas camadas da população -, um passado que a todos assegurava um nível de "penúria garantida" dentro dos limites do espartilho socialista. A Europa, não é o El Dorado e, a incerteza que a construção europeia tem para oferecer é motivo de desorientação. Tudo razões para nos empenharmos na construção de uma Europa mais coesa, mais social, mais "verde".

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Berlim, Lisboa vinte anos depois (1)


O muro, o grande e intransponível muro símbolo da Guerra Fria e da desunião da Europa caiu, há vinte anos.

Passaram-se pois, vinte anos sobre o impensável. Caiu o muro e, como um castelo de cartas, uma após outra, desmuronou-se um império construído sobre uma ideologia com pés de barro e contra a vontade dos povos.

Uma Europa, dois mundos diferentes. Lembro-me do dia em que transpus o muro para o lado de lá. Para o Leste em direcção à sinistra capital do Império. O contraste entre o buliço de Berlim (RFA) e o silêncio das ruas de Berlim (RDA). Parecia que estava a viajar no tempo. As casas, as ruas, os automóveis, as roupas -que me lembravam as que anos antes tinham sido "moda"... Era a única passageira de uma carruagem de combóio mas, nem por isso dispensaram o aparato intimidante de soldados, metralhadoras e cães. Estávamos em 1985, o muro ainda estava de pé.

Deixei uma sociedade de consumo, cheia de desigualdades e contradições, onde os povos eram livres de escolher o seu rumo e, "aterrei" numa sociedade de penúria quase generalizada onde qualquer veleidade de escapar "à massa" informe do socialismo e escolher um caminho próprio era olhada com a intolerância com que se olham os traidores.

A oeste uma sociedade de informação que tinha como regra a liberdade de expressão. A leste, uma sociedade que controlava e instrumentalizava sistematicamente a informação. Nem assim, utilizando os métodos que inspiraram Orwell, lograram granjear o "apoio popular". Finalmente, o vazio sobre o qual se alicerçou o império soçobrou arrastando consigo o temível muro.

Quem via as manifestações que enchiam as praças em alegres vivas à nomenklatura dificilmente poderia prever o final... As manifestações de apoio são o que são. Valem o que valem. As manifestações de apoio ao totalitarismo são, de facto, resultado do medo colectivo de ser preso, de desaparecer, de ser impedido de estudar ou trabalhar, medo de ser preterido na escolha do almejado automóvel ou apartamento ...medo. (cont.)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Poderemos ignorar?


"Vai por aí grande algazarra opinativa por a novel deputada comunista Rita
Rato, licenciada em Ciência Política, ter afirmado que nunca ouviu falar do
Gulag e que "nunca esto[dou] nem l[eu] nada sobre isso". "Isso" foram "só"
milhões de mortos, a maior parte presos políticos, em campos de concentração da
ex-URSS, uma espécie de Tarrafal multiplicado por números inimagináveis..."
Opinião de Manuel António Pina, para ler, aqui.

domingo, 19 de julho de 2009

É urgente, ficar inteligente







Encher teatros e praças de multidões entusiastas, que agitam bandeiras e gritam palavras de ordem eis, a forma dos totalitarismos se tranquilizarem. Era assim ontem, continua a sê-lo ainda hoje. Todos lutam pela multidão mas, há que distinguir entre as multidões. As multidões que espontaneamente se juntam para expressar o seu sentimento de alegria, de revolta, de luto … e, as que são primorosamente ensaiadas, manipuladas, condicionadas e, finalmente, levadas a participar. E o que se pretende ao montar tais espectáculos apoteóticos? Simplesmente, pressionar e impressionar condicionando, ainda mais, todos os ausentes perante a legitimidade que o suposto apoio popular confere ao poderoso líder.
A voz do povo é a voz de Deus” dizia-se quando, em tempos providencialistas, se precisava incluir o 3º Estado nas escolhas políticas. A democracia, trouxe depois, a necessidade da legitimação pelo voto, cada vez menos regimes totalitários conseguem escapar à ilusão da democracia através das urnas, nem que para isso, os resultados sejam … engendrados. Do Portugal de Salazar, à Alemanha de Hitler; da URSS, à Coreia do Norte, ao Irão, a … as grandes manifestações “de massas” são uma forma de mostrar a fidelidade “aos queridos líderes” ; de participar no círculo mágico do poder assegurando simultaneamente a segurança pessoal e, o rendimento (emprego, cargos…), o que doutra maneira não seria possível.

Entretanto, nesta era da informação talvez fosse interessante pensar, no muito que há a fazer, para assegurar a sustentabilidade do planeta para as próximas gerações. Por isso, é urgente fazer as "opções certas" e para o fazer, mais do que fulanizar os políticos, é necessário analisar criticamente propostas e resultados... ou seja, "ficar inteligente".

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A Constituição e as ideologias

"Alberto João Jardim ateou fogo ao debate político quando sugeriu extinguir o comunismo na próxima revisão constitucional. Jardim erra porque as ideologias não se extinguem por decreto, nem se proíbem no papel. As ideologias morrem, e desaparecem naturalmente, quando caem em descrédito.[...]" in, O Insurgente

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Sobre a cegueira

Não se pode deixar de ficar perplexo com a leitura do Avante e perante a análise marcadamente ideológica (logo restrita) que é feita da realidade.

De facto, o que dizer disto:

“[…]o Partido Comunista Português:
1 – Expressa a sua solidariedade a esta activista espanhola [Remedios Garcia Albert] dos movimentos pela paz e de solidariedade com os povos […]
4 – Chama a atenção que a detenção de Remédios Garcia foi efectuada à luz de legislação dita «antiterrorista» que, em nome de um suposto combate ao terrorismo, visa a restrição das liberdades dos cidadãos e a criminalização das pessoas e organizações que não se rendem à ordem mundial do imperialismo.[…]”
[Sobre a prisão de Remedios Albert, ver aqui]

Ou disto:

“Não espanta pois que o TPI se preste a tais propósitos [no Zimbabué, “o imperialismo não desiste da sanha reconquistadora e recolonizadora – o real leitmotiv das suas campanhas contemporâneas em África, travestidas de humanitarismo, promoção da «boa governação» ou combate ao terrorismo”; no Sudão, “os planos expansionistas dos EUA e da NATO que nos últimos anos não esconderam o desejo de intervir naquela zona estratégica e rica em recursos petrolíferos…” e combater “a influência «nefasta» da China”].
"[ O TPI é] um instrumento supranacional da justiça de classe dos poderosos. Seria excessivo, talvez, esperar que afrontasse as causas estruturais da exploração e miséria humanas no planeta, apontando o dedo à iníqua ordem vigente. Tão-pouco os crimes de guerra de Bush & Cia: não esperarão pelo TPI os milhões de vítimas das guerras de ocupação, do Iraque à Palestina. Os carrascos da bárbara agressão à Jugoslávia podem continuar a interceder por novas guerras de rapina. Guantánamo e os voos da CIA permanecerão uma miragem.”

Estas ligações, estas solidariedades, esta incapacidade de ver para além da ideologia é para mim, absolutamente espantosa. O maniqueísmo dela resultante é assustador. Uma realidade a preto e branco, sem cinzentos. Em que o “mal” (identificado como americanos/capitalismo) está claramente identificado e tudo é legitimo e legitimado em nome da luta contra esse "mal". Trata-se de uma simplificação muitíssimo perigosa da realidade que leva à legitimação das piores atrocidades em nome daquilo que se pretende ser o "bem".