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sábado, 31 de julho de 2010

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Uma viagem pela Amora [4]


Assento de finados
As duas páginas que hoje publico são testemunhas da lentidão dos dias monótonos e da emoção que a morte causava numa pequena comunidade.
Trata-se de dois caderninhos de registo dos óbitos que ocorreram entre meados dos anos 20 e o final dos anos 40, numa altura em que a região teria entre c. de 10 000 habitantes e em que todos eram de alguma maneira familiares, amigos ou conhecidos.
Nestes cadernos entre os inúmeros "faleceu" surge ocasionalmente, uma informação díspare: "casou", "veio cá a ..." ou ainda, um marginal "suicidou-se". Raramente surge a informação sobre a causa da morte, quando isso acontece um lacónico "desastre", explica tudo. Interessante ainda verificar que as falecidas não são normalmente, designadas pelo nome e por uma referência a um familiar: elas são " filhas de...", "mulher de..." ou, "mãe de...". Uma única e curiosa excepção surge na página que publico pode ler-se: "...o Armando pai da Edelvaise no dia 30 [Março de 1928]...".
São peças para o puzzle da história local. Dois documentos que nos revelam uma comunidade ainda rural na sua essência, onde as pessoas se conhecem pelos nomes, parentescos, alcunhas.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Era uma vez um estaleiro...

Estaleiro da Fidalga (Fevereiro de 2008) - foto V. Lima
"A fundação da Quinta da Fidalga (Seixal) remonta ao século XV, estando historicamente associada a Paulo da Gama, o irmão de Vasco da Gama, que se fixou no Seixal para assistir à construção das caravelas que supostamente o levariam até à Índia.[...]
Há mais de um ano (Fevereiro de 2008), altura em que se iniciaram as obras na zona que separa a Quinta da Fidalga da Baía do Seixal, houve alguém que ordenou destruir o Estaleiro da Fidalga."
Texto integral no Rumo a Bombordo.

domingo, 26 de abril de 2009

S. Nuno de Santa Maria

O gram Condestabre
Em seu mosteiro
Dá-nos sua sopa,
mai-la sua ropa,
mai lo seu dinheiro

A bençom de Deos
Cahio na Caldeira*
De nunoalvares Pereira,
Que abondo cresceo
E todo-lo deo.

Se comer queredes
Nom bades alem:
Don menga non tem,
Ahi lo comeredes,
Como lo bedes.

[Trovas populares]
CORDEIRO, Pe. Valério Aleixo,
Vida do beato Nuno Alvarez Pereira : santo condestavel
Lisboa, 1919


D. Nun' Álvares Pereira foi generosamente, compensado por D. João I. Entre as muitas terras que recebeu, contam-se aquelas que tinham pertencido ao judeu David o Negro, que se situavam no actual concelho de Seixal. Depois da sua morte, parte das terras que possuía na região passaram para a posse da ordem dos carmelitas - caso de "Pinhal de Frades".

A Biblioteca Nacional disponibiliza online um conjunto de obras bibliográficas e iconográficas, sobre o novo santo, que podem ser vistas e folheadas, aqui.
____
* alusão à caldeira (panelão de ferro) que Nuno Alvares Pereira tomou aos castelhanos, em 1385, e que pôs ao serviço do convento do Carmo.
...a "compaixão e o despojamento" do Santo Condestável

domingo, 19 de abril de 2009

Redescobrir o passado no Terreiro do Paço

Obras no Terreiro do Paço
Portugal tem um imenso museu escondido no seu subsolo. Daí nasce o conflito entre o presente e o passado. Fazer uma intervenção que implique escavar significa desenterrar um vestígio de um passado mais ou menos distante. Pior, significa amiúde ter de alterar projectos, ter de adiar prazos e, com tudo isto, ter prejuízos (no curto prazo) de diversa ordem.

No ano passado, a câmara do Seixal optou por arrasar os Estaleiros da Fidalga, contra aqueles que, como eu, defenderam que toda a obra deveria ser acompanhada por especialistas, para evitar uma eventual destruição de património contudo, a câmara prosseguiu as obras indiferente a tudo e a todos. Interessante, que de então para cá, já realizou no local duas Feiras dos Descobrimentos, pelo que, implicitamente, reconheceu algo que na altura negou: a (provável) ligação daquele património aos Descobrimentos.

A notícia do Público, de hoje (link indisponível), revela a descoberta dos vestígios arqueológicos, na Praça do Comércio e, a reacção do empreiteiro (Teixeira Duarte) :
"Depois de verem afluir ao local de cada vez mais arqueólogos entusiasmados, com máquinas fotográficas, os operários agiram: na quinta-feira cerca das 21h00 arrasaram tudo, ainda sem terem licença do Igespar para o fazer."
Este, é mais um caso de património que necessita de ser estudado e que permitirá saber , até que ponto, as imagens que nos chegaram da Lisboa Antiga (anterior ao terramoto de 1755), com as suas estruturas portuárias são, ou não, fantasiosas.
Sabendo que a pressa é inimiga do património, espero que apesar dos prazos (abrir a Praça do Comércio ao trânsito automóvel e proximidade das eleições autárquicas) se possa , ainda, salvaguardar o património, agora, descoberto.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Património em tempos de crise

Seixal - moinho de maré em ruínas

"Haverá poucos Governos como o nosso, na afirmação de uma tendência irresponsável para gigantescos investimentos públicos que não terão qualquer efeito prático imediato na presente crise económica e muito menos no emprego. Terão, sim, a consequência do aumento demencial das responsabilidades internacionais do Estado e da mais do que evidente possibilidade de derrapagem dos custos orçamentados para satisfação dessa empáfia megalómana.
[...]mesmo não se tendo uma visão economicista da Cultura, pensar a conservação do património, a sua valorização e a sua promoção como uma das componentes do desenvolvimento económico a curto prazo devia ser parte da estratégia para enfrentar a crise actual.
[...]Isso criaria mais empregos do que os investimentos faraónicos em obras públicas. Tanto o chamado small business, como investimentos bem orientados são vectores-chave para o estímulo da economia e a criação de emprego, evitando a criação de elefantes brancos ingeríveis.
[...]Assim, também a herança cultural cria a possibilidade de empregos, de formação e de qualificações, quer práticas, quer teóricas, para vários segmentos da população, especialmente o dos jovens. Muitas actividades ligadas ao património e à cultura podem ser suportadas por instituições e autoridades locais, regionais e nacionais, e abrir caminho a pequenas e medias empresas e a projectos bem sucedidos.[...]
Vasco Graça Moura
Para ler na íntegra, aqui.

domingo, 9 de novembro de 2008

Que linda falua que vem de Belém...

Desembarque em Belém

Porto de Lisboa c. 1820
A banhos na capital - Lisboa c. 1820

Estas imagens remetem-nos para um tempo em que a ligação entre as duas margens do Tejo era ainda um sonho longínquo.
De facto, estas estampas fazem parte de um livro publicado em 1826, da autoria de A.P.D.G., um estrangeiro (inglês) que tendo vivido durante alguns anos em Portugal (final do séc. XVIII e até c.1823) descreve num misto de admiração e, muito preconceito (assumido), a capital portuguesa e alguns dos seus usos e costumes (alguns "impróprios para as senhoras britânicas").
Muito interessante a descrição que faz dos marinheiros e das embarcações típicas do Tejo, a falua, a "moletta", o catraio... e relata com alguma estranheza o entusiasmo dos portugueses pelos "banhos" de rio descrevendo as praias fluviais.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Castelo em ruínas



fotos A. Cravo
Quinta do Castelo, Corroios. Mais, um exemplo, de património que se desmorona lentamente perante a indiferença de todos. Chamar os bulldozers criaria um bruaaá inconveniente, por isso, aguarda-se pacientemente, que o tempo, o desleixo e, o vandalismo façam o trabalho depois, como aconteceu com a pequena capela de Stª Marta, o local é limpo deixando campo aberto para o progresso.

sábado, 31 de maio de 2008

Gerir a História (3)

Olhando à nossa volta é elucidativo a forma como o património ambiental e edificado do concelho de Seixal tem sido tratado. Houve uma escolha cirúgica de património* a preservar, de tudo o resto se tem feito tábua rasa: as matas e florestas são substituídas por casas (o exemplo mais recente, é o da Verdizela); o estaleiro da Fidalga foi irremediavelmente destruído sem que fossem tomadas medidas de salvaguarda do eventual património arqueológico; os moinhos de maré estão em ruínas (excepção feita ao de Corroios cujas obras se arrastam no tempo, para ser convenientemente reaberto em ano de eleições??); o Gaivota apodrece há anos no estaleiro; e as frentes ribeirinhas com os seus edifícios históricos que se degradam ano após ano submersos pela malha urbana...



“-Conheço este prédio – disse Winston por fim. – Está em ruínas agora. Ficou no meio da rua do Palácio da Justiça.

[…]

Winston indagou vagamente de si mesmo a que século pertenceria a igreja. Era sempre difícil determinar a idade de um prédio londrino. Tudo quanto fosse grande e importante e de aparência nova era automaticamente declarado pós-revolucionário, enquanto que tudo o mais comprovadamente antigo era atribuído a um período obscuro denominado Idade Média. Afirmava-se que séculos e séculos de capitalismo não haviam produzido nada de valor. Da arquitectura não se podia aprender mais história do que dos livros. Ruas, pedras comemorativas, estátuas, nomes de ruas – tudo quanto pudesse lançar luz sobre o passado fora sistematicamente alterado.”

George Orwell, 1984

_______________

* sobre este assunto, ver aqui e aqui.


sexta-feira, 9 de maio de 2008

Salvar o "Gaivotas" do esquecimento


Assine aqui a petição, promovida por Homens livres e leais para com a cultura e identidade ribeirinha para que o Gaivotas se possa fazer de novo ao rio.
O Bote de Fragata "Gaivotas" tem de poder voltar, novamente, a navegar!

Saber mais...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Destruir a História de Mansinho



A Companhia de Lanifícios de Arrentela instalou a sua unidade fabril em 1862 e teve uma importância económica notória uma vez que proporcionava trabalho a cerca de 500 famílias oriundas da Covilhã, Tortozendo, Gouveia e naturalmente da Arrentela. Esta fábrica deu trabalho a várias gerações de trabalhadores sendo significativo o seu impacto económico na região.

A Companhia de Lanifícios de Arrentela beneficiava das excelentes condições geográficas do local que asseguravam a proximidade a Lisboa (via rio Judeu) e consequentemente a acessibilidade às matérias primas e um eficiente escoamento dos produtos. A água era um dos factores essenciais ao processo de produção e ela existia ali em abundância.

A fábrica foi desactivada nos anos 80 (do séc. XX) e, cerca de 1990, foi sujeita a desmantelamento “procedendo-se, sem a possibilidade de qualquer registo ou documentação, à alienação da sua maquinaria e equipamentos, processo a que não foram poupados a maioria dos imóveis e oficinas, não obstante o seu elevado valor histórico, tecnológico e cultural.”

Assim, a falta de respeito pelo património histórico fez com que imóveis de interesse tivessem desaparecido sem que se pudesse ter concluído o seu estudo e o inventário de conjunto. E tudo isto se fez sem ter suscitado qualquer clamor audível. Sem protestos, de mansinho. O Boletim Ecomuseu Municipal*, de onde retirei estas informações dá conta desta insatisfação mas, com dezasseis anos de atraso nada havia já a fazer. Onde estavam os responsáveis políticos (na área do património e urbanismo) da época que se calaram, encolheram os ombros e, deixaram passar?

Aqui estava um exemplo claro de uma unidade fabril que teria sido possível preservar, cujo interesse para a história local (e do período industrial) era inegável e que uma conjugação vários factores (desinteresse, adiamento da sua classificação, apetites imobiliários) condenou a um estado de quase-morte súbita, inglória e silenciada.

*Boletim Ecomuseu Municipal n.º39, de 2006.

sábado, 15 de março de 2008

Da Falta de Vontade Política ...


Folheando a última edição do Boletim Municipal do Seixal, não pude deixar de sorrir...
Na sua página 5 anuncia-se: “Espaço requalificado liga Quinta da Fidalga ao Núcleo Naval”. Um subtítulo a negrito põe em evidencia o “Novo espaço de lazer e bem-estar” dando alguns pormenores sobre o projecto. Tudo isto encimado por três desenhos onde se mostrar um caminho vermelho semicircular entre as sombras das palmeiras e de outras árvores de grande porte (pelo tamanho das palmeiras penso, que os desenhos se reportam ao ano de 2125) que irão transformar este espaço, num espaço igual a outros pois, aquilo que o caracterizava, o estaleiro, foi destruído.
Mas vamos ao que interessa.
A primeira parte do “artigo” é dedicada a refutar aquilo que aqui foi dito (mas também, o que foi dito pelo Baía do Seixal, a-sul, pelo Revolta das Laranjas, entre outros) durante os meses de Janeiro e Fevereiro. Vejamos então:

1- Edifício do estaleiro – de acordo com o BM “não era mais do que um armazém construído em pleno séc. XX …”;
2- o historiador, António Nabais, afirma que “não há referências ao estaleiro naval da Fidalga.”;
3- António Nabais explicou (não era preciso porque, nós sabíamos) que “os estaleiros navais [antigos] eram erguidos nas praias”;
4- os estaleiros instalados nas margens do saco do Seixal eram pequenos e “deixaram poucos vestígios de interesse histórico”.
:

Muleta, embarcação tradicional do Tejo construídas nas praias da Baía da Seixal


1- Destruídos todos os antigos estaleiros do Seixal, à excepção do estaleiro da Arrentela que é um barracão de madeira de valor histórico discutível, inclusivamente aquele que estaria destinado a albergar o pólo museológico de Amora e havendo um compromisso de preservar estes espaços parece incompreensível a decisão de derrubar o edifício. Poder-se-ia a argumentar sobre as condições de segurança, sobre o reduzido valor histórico e patrimonial mas, isso é, lana caprina, o que de facto não houve foi sensibilidade e vontade política. O estaleiro, simplesmente, interpunha-se entre os projectos da câmara do Seixal para aquele lugar, logo, tinha que ser abatido.

2- A história dos esteiros do Tejo está cheia de estaleiros que foram mudando de nome à medida que a sucessão de gerações impôs a mudança de proprietários/características. É claro, que no séc. XVI não existem referências ao “estaleiro naval da Quinta da Fidalga”. Óbvio.

3 - Existem referências a um conjunto de estaleiros situados nas margens dos esteiros do Tejo cujas praias, na época dos Descobrimentos, fervilhavam de actividade, ora, esta praia poderia esconder vestígios de antigos estaleiros que depois dos movimentos de terra ali efectuados estarão agora perdidos. Sabemos que pela própria essência dos materiais usados na construção naval até ao séc. XIX é muito difícil encontrar vestígios de monta mas, valeria a pena tentar.

Ora, o que as “vozes discordantes” disseram foi que era necessário proceder ao estudo arqueológico do local pois, o subsolo poderia revelar vestígios de antigos estaleiros importantes para a história local e da construção naval. Antes de proceder à betonização encapotada do espaço seria importante fazer um estudo de campo e, não meramente livresco, como aconteceu. De qualquer forma continuamos a aguardar pacientemente o “relatório técnico” que o Sr. Veredor Jorge Silva referiu. Muito embora, este “artigo” no BM tenha contribuído decisivamente para agravar a minha convicção de que “não existe relatório técnico”, quando muito uma pesquisa bibliográfica feita à medida.
___________________________________
Obs.: curioso verificar que nos desenhos publicados não surge qualquer equipamento de restauração associado, no entanto… Proc. 3/M/04 – Reapreciação e aprovação. Aprovada por maioria e em minuta, com duas abstenções, a concessão do direito de superfície para a instalação de um equipamento de restauração e bebidas com cais próprio em parcela do domínio privado municipal na Arrentela (estaleiro da Fidalga) para um valor base de licitação de € 1.000.000 por 40 anos.»[ver aqui]

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

"Não existem referências sobre o valor do espaço..."


Mas valeria a pena procurá-las, não?

A Quinta do Rouxinol e a Quinta da Arrentela fizeram parte do complexo portuário dos esteiros do Tejo ainda durante a ocupação romana[1]. No caso da Quinta do Rouxinol podemos inferir que foram as ânforas aí fabricadas que constituíram o maior foco de atracção mas sobre a “Arrentela” ainda temos muito a estudar.
Faria notar que a ocupação histórica deste local (Arrentela/Seixal) está documentada desde a antiguidade como ligada a actividades portuárias (que estiveram na origem destes aglomerados urbanos). Assim, a pretensão de ver o local ser objecto de um estudo não é despicienda. Só a pressa de destruir para mostrar “obra” feita e, o desprezo pelo conhecimento podem escamotear com ligeireza a probabilidade de naquele local poder existir informação válida. Ora, a recente demolição e os trabalhos em percurso, fazem recear pela destruição de vestígios arqueológicos existentes no subsolo da área envolvente do estaleiro da Quinta da Fidalga.
Esperar-se-ia outro sentido de responsabilidade por parte da autarquia[2].

[1] Vide: Maria Luísa Pinheiro Blot
Os portos na origem dos centros urbanos: contributo para a arqueologia das cidades marítimas e flúvio-marítimas em Portugal, IGESPAR.
[2] Sobre a destruição do estaleiro da Fidalga veja no blog Baía do Seixal

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Têm estudos? Mostrem-nos!...ou será bluff?!

Ontem foi demolido o que restava do velho estaleiro da Quinta da Fidalga.
Foi pena! Talvez pudéssemos ter aprendido alguma coisa com aquele espaço, uma vez que o pólo da Amora nunca o chegou a ser, e se transformou em mais um espaço “sem alma”.
Foi demolido mas as questões permanecem, no ar, ensurdecedoras.
Requereu o PSD, através do seu presidente que a Câmara se dignasse “responder às questões[…] colocadas, nomeadamente como pretende garantir a manutenção do estaleiro naval ou se o pretende manter, tendo em conta os projectos que tem para esse espaço, preservando dessa forma um património de inqualificável e incomensurável valor histórico-cultural”aí existente. Ora, desde 3 de Fevereiro, data em que o requerimento foi apresentado, a Câmara não se dignou responder e persistiu imperturbável no seu autismo.




Questionados em sessão de Câmara sobre o assunto terá sido afirmado que existiam “estudos arqueológicos” que suportam as decisões tomadas relativamente àquele espaço. Pois bem, queremos vê-los. Apresentem os estudos. Se foram efectivamente feitos, se respeitam padrões científicos então ficaremos todos a saber que ali se poderá erguer uma unidade de restauração à beira de um passeio pedonal. Poderemos, mesmo assim, lamentar o destino triste do último dos estaleiros tradicionais mas, ficaremos tranquilos quanto ao conteúdo do subsolo: nenhum vestígio de estaleiros, nem dos descobrimentos, nem das embarcações tradicionais. Um levantamento arqueológico terá permitido apurar da importância, ou falta dela, do local para a história da construção naval.

Não basta acenar que temos “estudos”. Todos já ouvimos falar de “estudos técnicos” que tardam em ser apresentados (é também o caso dos estudos relativos à implantação da piscicultura no Sapal de Corroios). Os “estudos” fazem-se para fundamentar decisões não devem ser documentos que nos envergonham e que por isso tardamos em apresentar.

Aguardamos, pois, com a maior curiosidade as conclusões dos levantamentos/estudos arqueológicos feitos no local.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O Ecomuseu disse...

Construção da réplica do navio holandês (original de meados do séc. XVII) "7 Provincien". nos estaleiros de Lelystad.




“No território do actual concelho do Seixal, os esteiros do Judeu e de Corroios apresentaram desde sempre condições especiais de ancoradouro para inúmeras embarcações: as suas praias, de águas calmas e pouco profundas, eram abrigos naturais das tempestades de Inverno. Estes factores naturais e ainda a proximidade em relação a Lisboa poderão explicar a instalação no concelho da Ribeira das Naus, estaleiro onde se construíram as embarcações utilizadas nas viagens dos Descobrimentos Portugueses. Do Dicionário Geográfico do século XVIII, constam as seguintes informações da autoria do pároco da freguesia do Seixal que dão conta daquele estaleiro no concelho antes de ter sido transferido para a Telha, no Barreiro: [O Seixal] tem duas Ermidas huma dentro do lugar, e da Nossa Senhora da Conceição que he tradição ter sido erecta pelo Rey e Senhor Dom Manoel, para nella ouvirem missa os oficiais, e Mestrança de primeyra Ribeira das Naos que foi neste lugar, e delle passou a dita Fabrica para o lugar da Telha, no rio de Coyna distante deste lugar menos de meya legoa (…).

Para além das condições naturais da Baía do Seixal, outros factores contribuíram para o desenvolvimento da construção naval em madeira: a existência de vastas manchas de pinhal localizadas no interior do concelho, o aproveitamento das praias para espalmadouro, ou seja, locais de conservação da madeira e a abundância de seixos, utilizados para lastro das embarcações.”

In, Ecomuseu Informação, nº 27, 2003, pág. 12.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Á descoberta dos barcos dos Descobrimentos

Os séculos XV e XVI foram de enorme importância para Portugal e para o Mundo, foram o primeiro passo para a globalização.

Sabe-se, bastante, relativamente a esta época pois, humanistas, cronistas, poetas, aventureiros, artesãos, artistas… legaram-nos o seu trabalho para que dele laboriosamente pudéssemos reconstituir o seu ambiente. Conhecemos os seus nomes, as aventuras e desventuras, os seus lugares de nascimento e morte, conhecemos as suas ambições, medos, traições, crimes, paixões. No entanto, sobre os magníficos veículos que os levavam até às “sete partidas do mundo” conhecemos pouco. Sobre a tecnologia que permitiu construir barcos para transportarem centenas de pessoas, mercadorias, canhoeiras o nosso conhecimento é insuficiente: as fontes são escassas, a arqueologia é cara e abundam as “histórias” não confirmadas.

Felizmente (para nós) algumas destas embarcações naufragaram e conservaram-se, até hoje, os seus destroços. São fontes de valor inestimável pelo muito que nos permitem aprender.
E, se por fortuna, pudéssemos localizar um estaleiro da época que não tivesse sido engolido pelo rio ou pelo “progresso” muito mais poderíamos aprender sobre as técnicas de construção e, sobre os homens que serrando, martelando e calafetando estiveram na sua origem.

A possibilidade de um estaleiro coevo dos Descobrimentos ter sido instalado nas proximidades da Quinta da Fidalga não é uma fantasia. Trata-se de uma probabilidade que não deveria ser descartada com ligeireza. Os trabalhos que decorrem na marginal do Seixal deveriam ter sido antecedidos por um estudo prévio do local de forma a salvaguardar a eventualidade de ali existirem efectivamente vestígios de estaleiros mais antigos e de interesse histórico. O facto, de se levarem a cabo obras que implicam movimentações de terreno, sem o devido acompanhamento, numa área sensível e potencialmente de interesse histórico é, no mínimo, irresponsável.
Caso, se confirmasse a existência de um antigo estaleiro no local o que faria a Câmara? Lamentava a destruição ou, continuaria a “assobiar para o ar” fingindo não ouvir as preocupações e interrogações que se levantam?
Mas, mesmo o estaleiro ali existente se pode revestir de interesse, tanto mais que a Câmara Municipal do Seixal permitiu o desaparecimento do antigo estaleiros dos Venâncios -em Amora- que chegou a estar anunciado como mais um pólo do Ecomuseu e que por incúria e irresponsabilidade foi vandalizado e destruído até não restar nada.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Crónica de uma Morte Anunciada, ou talvez não?

“Os ofícios ligados à construção de barcos não deveriam ser totalmente desconhecidos dos habitantes da região [Seixal], visto já existir ao que parece a modesta indústria da pesca o que […] exigiria a existência de algum pequeno estaleiro. Porém, as necessidades impostas pelas construções trouxeram certamente aqui artífices que o seu ofício ensinaram a muitos dos habitantes que primeiro se empregaram na execução de tarefas auxiliares.
[…]
Sobre este particular dizem os historiadores Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues: ‘ Vendo pessoas competentes que o sítio era azado [apropriado] para construções navais em grande escala e que estava em fácil comunicação com os operários da fábrica da Ribeira das Naus que estava estabelecida a E[ste], para o lado da vila de Coina, fundaram aqui alguns estabelecimentos dependentes do Arsenal da Marinha, e pouco a pouco os mestres e operários foram construindo casas de habitação’.
[…]
...o estaleiro da Fidalga, situado junto à Quinta de Vale de Grou ou da Fidalga que se julga ter pertencido a Estêvão da Gama, Vasco da Gama, Sebastião da Gama Lobo […] é tão antigo que não admira que tenha sido escolhido para construção de barcos para fidalgos e outros de maior porte para a marinha portuguesa.”

Manuel D’Oliveira Rebelo, Retalhos da Minha Terra, Seixal, 1959, pp.76 a 78.


É este patrinómio que poderemos estar a destruir irremediavelmente se prosseguir a demolição do estaleiro de alvenaria ali, entretanto, construído. Se esta informação estiver correcta, arriscamo-nos a perder os vestígios deste estaleiro quatrocentista (mais antigo?) em consequência da movimentação de terras. Se ali ainda existirem (no subsolo) vestígios deste estaleiro então estaremos a destruir um património único de grande importância para a história da construção naval, história local e, para a história dos Descobrimentos portugueses[1] sem que, pelo menos, se tivesse procedido ao levantamento arqueológico do local, e feito o adequado estudo e inventário.
Se assim for tratar-se-à de um crime de lesa património. Tenhamos esperança que o bom-senso prevaleça.
[1] Sobre este a assunto ver também Baía do Seixal , Revolta das Laranjas.



Critérios como Mascaras


Imagino-me a escrever sobre as mortes anunciadas de muitos lugares históricos e naturais destes concelho. Alguns desses lugares já estão “mortos e enterrados”, outros vegetam aguardando que o tempo faça o seu trabalho para depois, o camartelo poder intervir sem escândalo público.

A intelligentsia local pretende promover o concelho através de um circuito turístico “do trabalho”, ora, como sabemos nem todos os trabalhos são iguais, há uns mais iguais que outros.
Há locais e edifícios que estão ligados à história do trabalho sim, mas também à história do Partido Comunista esses são para preservar. Há outros que gozam desse privilégio dada a sua antiguidade e a sua localização ou ainda o seu carácter simbólico: proto-industrial (como se nos quisessem dizer que neste concelho já antes da industrialização se davam passos no sentido “certo”): é o caso do moinho de maré de Corroios e da olaria romana adjacente.
Mas falemos dos outros, dos excluídos. Esses regra geral não tiveram a sorte de ser “classificados pelo IPPAR” porque não foram propostos pela Câmara (outros mesmo classificados aguardam pacientemente a “sua hora”, entregues que estão ao abandono e ao vandalismo).
Serão de menor importância?
Porquê que a Fábrica dos Laníficios de Arrentela é menos importante que a Mundet? Porquê que os núcleos antigos de Amora, Arrentela, Seixal não foram propostos para classificação?
É certo que são considerados “imóveis de interesse municipal” mas na prática isso significa que pouco tem sido feito para a sua preservação não havendo em seu redor uma zona de protecção, que permita continuar a apreciar a moldura urbana original, pondo-a a salvo dos mamarrachos. Estas casas cuja degradação se arrasta em alguns casos há décadas são o que ainda resta do processo de industrialização do século XIX.
E as quintas? E a floresta? E as matas? A agricultura, a pecuária e a silvicultura não são merecedoras de figurarem neste circuito do trabalho? Parece que não. Este é o trabalho que não interessa à imagem pretendida. Este é o trabalho dos rendeiros, dos foreiros, dos camponeses e até dos escravos. Zés-ninguém que durante séculos se conformaram com a sua (pouca) sorte. Foram Zés-ninguém em vida e sê-lo-ão na morte pois serão apagados da história que deles nada rezará.
E os estaleiros onde durante centenas de anos foram construídos os barcos destinados à carreira das Índias, mas também à guerra, à pesca ao transporte de pessoas? E os portos e portinhos, também eles vestígio de uma época em que a principal atracção “desta banda” era a acessibilidade à capital através do rio?

Quando se trata de “trabalho” cheguei à conclusão que os critérios são rígidos: à imagem de “trabalho” pretende-se colar a imagem do partido comunista. De facto, fará sentido esta ideia de transformar o Seixal três dias por ano na Meca vermelha desperdiçando o resto do ano?
Os milhões gastos pela câmara do Seixal têm por base um critério nunca frontalmente assumido: a vontade política de preservação da Mundet e da Siderurgia deve-se à sua importância enquanto unidades de produção mas sobretudo, ao facto, de terem sido “viveiros” do Partido Comunista nos anos do Estado Novo.



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Aqui se fez História

[…]
Na vila [Almada] havia assaz de gente que a pudesse defender [contra os castelhanos], e doutros estrangeiros [pessoas de fora da vila] que se acolheram a ela, que se vinham lançar com o Mestre [D’Avis] e não puderam, por azo da frota. Eles tinham mantimentos de pão e vinho e carnes e doutras cousas pêra seis meses e mais; mas não havia outra água, salvo de uma pequena cisterna, e sobre esta foi posta grande guarda dando a cada pessoa por dia uma canada e mais não. […] os da vila saíam fora [de Almada] esperar os castelãos [castelhanos] em certos passos, os quais iam à forragem pelo termo e a Sesimbra; e matavam deles e feriam, em tanto que já não ousavam de ir senão muito juntos. E assim esperavam os que iam os batéis a Arrentela e Amora a roubar, de guisa [maneira] que um dia mataram mais de trinta todos em lama, querendo-se acolher aos batéis e não sabendo o porto.
[...]

Fernão Lopes, Crónica de D. João I, o da Boa Memória, cap. 135

sábado, 26 de janeiro de 2008

Um Futuro para o Bairro dos Vidreiros?

Satisfação!
Foi, naturalmente satisfação que senti com a iniciativa do PSD de propor na Assembleia Municipal do Seixal a classificação da zona ribeirinha da cidade de Amora como Imóvel de Interesse Público (IIP)[1]. Resta acreditar que todas as diligências serão feitas para que no mais curto espaço de tempo esta sábia decisão não caia “em saco roto” e que se proceda desde já à catalogação, estudo e registo fotográfico detalhado deste património, memória única de uma fábrica de vidros que foi devastada pelo tempo e pelos homens.
Esperemos, ter ainda tempo de preservar este casario, para que as futuras gerações possam dele usufruir em termos paisagísticos e, para que lhe possam ser atribuídas novas funcionalidades capazes de o integraram no bulício da cidade.
Quero acreditar que será possível (e que haverá vontade política) ultrapassar os possíveis obstáculos que se coloquem à reabilitação do Bairro Vidreiro. Como já disse, aqui antes, é fácil constatar que ele desapareceu totalmente das fotografias oficiais (da Junta de Freguesia, da Câmara, e dos folhetos da CDU), tal a incomodidade que a vergonha pelo estado ruinoso dos edifícios tem produzido. Quero acreditar, que será possível discutir um futuro para a “correnteza”, até porque este conjunto reveste-se de um alto valor histórico-patrimonial, pois é representativo de uma época e desempenhava uma função muito específica: o alojamento dos operários da fábrica dos Vidros de Amora. Tratou-se de uma iniciativa filantrópica (… tão ao gosto da época!) que simultaneamente visava atrair e fixar trabalhadores especializados ingleses e depois (do Ultimatum) alemães.
Este bairro, do passado, merece ser parte do futuro!

[1] Esta proposta terá merecido os votos favoráveis do PSD (proponente), da CDU e do BE, quanto ao PS parece que optou pela abstenção. Pena, a confirmar-se, pois,. este é um daqueles temas em que a unanimidade seria desejável.